A inteligência por trás da detecção de Salmonella

A tecnologia tem transformado a dinâmica da produção animal. O objetivo? Aprimorar processos garantindo qualidade e redução de custo. Acompanhamos, dia-a-dia, a entrada dessas novas tecnologias e com isso uma pergunta, estas ferramentas estão sendo usadas de forma eficiente? As empresas estão olhando, com cuidado, onde e quando implantar essas novidades? 

Inovações, tecnológicas ou não, surgem todos os dias, mas elas trazem uma lacuna importante e pouco debatida: qual a melhor forma de implantá-las? Há uma citação clássica de Pablo Picasso que sintetiza essa questão “computadores são inúteis, eles só trazem respostas”. Então, não apenas computadores, mas toda a tecnologia precisa de uma inteligência humana e aprimorada para ser eficaz, estamos falando da estratégia por trás da inovação, não bastam respostas, é preciso saber fazer as perguntas certas. Qual a melhor tecnologia para cada etapa do processo produtivo? 

Esse cenário se aplica muito à detecção de Salmonella, por ser uma dor importante e urgente do mercado, muitas ferramentas estão sendo desenvolvidas para esse fim. A grande questão é se a aplicação está, de fato, contribuindo com a melhora na produção.

Antes de entrar na discussão sobre qual a melhor metodologia para cada etapa, é preciso entender uma realidade, a Salmonella não será extinta da cadeia de produção. É preciso saber como minimizar as contaminações. A melhor arma neste processo é a informação de qualidade. Quanto antes e com maior precisão, mais fácil é mitigar o problema.

O esforço não pode ser em extinguir uma bactéria, pois será uma guerra perdida. O foco precisa estar em entender quais as principais portas de entrada de contaminação e, munido de informação, fazer o manejo inteligente da produção.

O que dificulta é o tamanho do processo produtivo na cadeia do frango por exemplo. Por ser longo, e com muitos pontos de possíveis contaminações, é muito difícil entender e ponderar onde e quando investir na detecção do patógeno. E é aí que mora o grande desafio deste cenário, a estratégia por trás das inúmeras opções de detecção, qual é a que tem o melhor custo-benefício em cada momento da produção? A resposta certa não existe, porque há particularidades em cada cenário, mas o que mais importa nesta discussão não são as repostas, e sim perguntas.

As portas se abrem no incubatório, nesta fase já é possível averiguar, por várias metodologias, se há contaminação ou não – as avaliações neste momento são importantes também para entender a transmissão vertical na cadeia. Deve-se manter em mente que muitas vezes um animal infectado via vertical ou no incubatório podem aparecer negativos nas técnicas convencionais, pela baixa carga bacteriana. 

Depois vem o momento do transporte. O descuido deste momento pode invalidar toda a preocupação e cuidado tidos nos incubatórios. Por isso não se pode deixar nenhuma porta aberta, todas elas precisam assegurar a segurança do produto, um descuido, ou economia, pode inviabilizar um lote inteiro, e literalmente, o barato sai caro.

Para essa fase é muito importante se pensar na rastreabilidade. Para saber sobre as possibilidades de contaminação no ambiente existem muitas formas de detecção. Existem muitas pesquisas e produtos de alta qualidade que dão munição para tomada de decisão dos técnicos.

Depois que as aves saem do incubatório e são levadas para as unidades de criação o perigo de contaminação aumenta. Por permanecer mais tempo nestes locais a possibilidade de aparecimento de Salmonella é maior e é neste momento que as informações de qualidade podem determinar a produtividade e lucratividade da produção. 

Ao chegar no campo, um dos agravantes é a possibilidade de entrada de Salmonella a partir de outros animais, como gado, porco e até mesmo ratos. As camas são o grande foco nessa fase e por isso é olhada com muito cuidado pelos produtores. Já nesse início existem muitas metodologias que podem ser aplicadas. Algumas mais invasivas, outras mais simples. É nesse processo que se inicia a estratégia do negócio, entender quais são os riscos deste momento e quanto é necessário investir para mitigar uma contaminação.

Ainda nesta fase há uma preocupação importante, a ração das aves. Qual a melhor forma de assegurar a segurança da nutrição animal? As rações são grande foco de proliferação de Salmonella, por isso é um ponto focal de atenção. Um bom manejo e a avaliação sistêmica desses insumos podem determinar a sanidade do produto final.

A pergunta não é exatamente quanto custa investir na rastreabilidade desta fase, é preciso avaliar qual o risco em não o fazer. Não existe uma resposta certa ou errada, a certeza é da necessidade em se avaliar esses riscos, em trazer inteligência e estratégia para saber qual a melhor metodologia e tecnologia para cada caso.

A estratégia de detecção desta fase é de muita importância e existem muitas possibilidades de análise, desde a microbiologia clássica, até testes imunológicos que detectam a presença de defensores do organismo do frango que se apresentam quando há Salmonella no animal. Existem testes de nanotecnologia que avaliam o ambiente e também testes rápidos que detectam o DNA da Salmonella em poucas horas, seja no animal ou no ambiente. Qual o melhor? Vai depender da análise aprimorada de cada caso para que se entenda quais os maiores risco de cada cenário.

Depois que sai das unidades de criação o frango é novamente transportado até os abatedouros. No momento deste transporte é de fundamental importância saber sobre a contaminação ou não dessas cargas. A falta de informação desse processo pode colocar em risco um frigorífico inteiro. Sem dúvidas essa informação não pode ser desconsiderada. Neste momento o tempo de análise conta muito, um teste rápido pode significar economia e segurança na produção.

Averiguar a contaminação até a chegada no frigorífico pode fechar muitas portas para evitar a entrada da Salmonella. Não há dúvidas de que se a carga chegar negativa até esse momento, já se venceu grande parte do processo. Mas o problema não termina ao entrar no frigorífico. Apesar de passar um tempo mais curto dentro do abatedouro, é preciso ter barreiras fortes para bloquear a entrada da bactéria no produto final.

O ambiente precisa ser fortemente controlado e é nesta fase que a rastreabilidade do ambiente é fundamental. 

E depois de abatido é necessário, por óbvio, um controle preciso e rápido do produto final, e nesta fase o tempo conta muito, talvez seja o maior agravante do processo. Quanto antes o abatedouro tiver a informação, seja ela oficial ou não, mais tempo terá para uma decisão assertiva. Muitos mercados importadores podem ser ganhos ou perdidos por falhas na monitoria deste último ponto da cadeia.

Entendemos que todas as fases têm seu peso, e no final das contas, em um caso de contaminação, pouco importará por onde a Salmonella entrou. Mas é verdade que quanto mais informação, quanto maiores e mais eficazes forem os cercos, melhor será o resultado e mais eficiente será a produção. Resta ao produtor olhar para todos esses pontos e enxergar a solução que melhor atende as necessidades em cada fase do processo. Hoje, há tecnologias para entender a prevalência da salmonela em todos os pontos da cadeia produtiva. Reafirmamos, o que mais importa é a qualidade das perguntas, pois as respostas estão aí, ao alcance de todos. As tecnologias se tornaram muito acessíveis e estão exclusivamente pensadas para atender esse mercado, basta aplicar da forma correta.